segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Entrevistei Xênia Bier em janeiro de 2013



"Olha a sua amiga aí", li numa mensagem de Whatsapp da Zappa (a jornalista Alecsandra Zapparoli) às 14h54" de hoje (segunda-feira, 24/08/2020). O link de notícias anunciava: "Morre Xênia Bier, a primeira feminista da TV brasileira". Que tristeza. Murchei igual flor sem água.

A entrevista a seguir (que fiz com ela) foi publicada na revista AnaMaria em janeiro de 2013. Eu era redatora-chefe da publicação, e Xênia colunista.


“A mulher está promíscua

 

Aos 76 anos, Xênia Bier continua firme no posto de apresentadora mais polêmica da televisão brasileira. Só topou dar essa entrevista se fosse sem fotos. “Quero que o público fique com a imagem de quando deixei a televisão, não a atual”, explicou. Uma pena, leitora. Xênia Bier captou meu olhar no hall do prédio onde ela mora como se eu fosse uma câmera. Só desgrudei os olhos dela na hora de ir embora. Lépida e faceira, ela continua a mesma mulher cheia de vigor – e magérrima – que víamos na tevê. De cabelo curto batendo no pescoço com charme e vestido longo até os pés, ela recebeu a revista AnaMaria na sala de seu apartamento gostoso e bem ventilado, em São Paulo. Com tudo impecavelmente no lugar. Entrevistá-la é uma aventura mental, a gente sempre tem a impressão de saber menos, muuuito menos que ela. A cada frase dita, Xênia nos dá a impressão de que nada escapa de seu radar. Braba, bem humorada, ácida, rápida, veloz, assim pensa e fala Xênia Bier. Há 20 anos for a da televisão, mãe adotiva e avó da Marcela, menina meiga de 10 anos, na entrevista a seguir, ela dá sua opinião sobre o mundo atual, educação de filhos, amor, sexo, homens e nós, mulheres.

 

Por Lidice-Bá

 

P – O mundo está em decadência?

R – Eu acho que o mundo está em mutação. E sempre que se muda, decai. Você sente a decadência do mundo pela decadência da mulher. É histórico. Grécia, Roma, Egito… Quando a mulher decai… Ela traz a fotografia da vida na barriga, né. Ela não pode ser promíscua. O homem pode.

 

P – Qual a sua maior crítica ao universo feminino?

R – A promiscuidade. A mulher está promíscua. Em todos os sentidos, não é só sexual. Essa tá grave, eu acho. Não é puritanismo, hein! É o contrário, é respeitar a mulher, é valorizar a mulher. O homem pode ir ali na esquina, dar uma trepadinha, lavar, e acabou. Porque pra ele aquilo realmente é uma trepadinha. Pra mulher não. Ela vai ficando com o rosto marcado. Ela vai sofrendo, ela se sente violentada.

 

P – Qual o grande erro da mulher atual?

R – Ela foi copiar o homem no que ele tem de pior, que é a sexualidade. Desde o movimento feminista que a mulher acha que ser independente é ir pra cama com quem você quiser. Pela-mor-de-deus! Olha o coitado do homem aí, ele tá perdido desde séculos e séculos amém. O homem não sabe o que é amor! A emancipação da mulher era pra ser exatamente essa: ensinar o homem a amar. Assim, ele se emancipava e a mulher também!

 

P – Os homens não sabem amar?

R – Os homens – e as mulheres – hoje se apaixonam. Amor é outro departamento. Paixão é doença. Amor é saúde. Como se diz, o amor não tem idade. É verdade, mas vocês não estão amando, vocês estão apaixonados. Então tem idade, sim. E você é velha pra ele. Acho que essa questão sexual é muito mal resolvida na humanidade. Hoje temos na cabeça que “ai, que horror, pedofilia”, mas isso sempre existiu. A humanidade evoluiu tecnologicamente mas emocionalmente ela continua muito doente.

 

P – A mulher está promíscua em que outro sentido?

R – Como mãe. As mães abandonaram essa coisa fantástica do educar para o futuro. Elas delegaram o poder, terceirizaram para avós, professoras… Tudo ela terceiriza e isso pra mim é promiscuidade. Mas a promiscuidade mais grave ainda é a do sexo. Porque como mulher, ela tem que se colocar como a semeadora do futuro. Porque ela é mãe!

 

P – O que muda quando a mulher vira mãe?

R – Ser mãe é ser sábia. Dentro de uma casa, a mulher é advogada, psicóloga, engenheira, médica, juíza, economista, ou seja, ela é uma sábia! E não importa que fique sozinha na velhice, se cumpriu a missão.

 

P – Pra você, a mulher está promíscua no sentido sexual e maternal. Tem mais algum?

R – Tem a promiscuidade de querer imitar o homem profissionalmente. Fica promíscuo porque ela vai jogar o mesmo jogo do homem e o jogo dele sempre é…

 

P – Pesado para a mulher?

R – Exatamente.

 

P – Dá um exemplo.

R – Não convivo muito com executivas mas tem um ótimo exemplo: a nossa presidenta. Ela é um homem. Eu não tô dizendo lésbica, hein, que fique bem entendido. Mas ela é um homem, ela anda como um sargento. Mas eu entendo essa mulher. Pra sobreviver lá dentro, ela teve que fazer isso. Eu percebi isso muito rapidamente porque quando comecei na televisão era um mundo só de homens, não tinha uma produtora, imagina! Só homens. Então eu fui seguindo o caminho deles, o [autor, ator, diretor e radialista carioca, pioneiro na televisão brasileira] Silveira Sampaio foi meu mito. Eu comecei a aprender a apresentar com ele. Que era muito gente boa mas eu era muito brava, ninguém brincava comigo [baixa o olhar para os pés, que batem no ar]. Não… Não dava pra brincar naquela época. Mas aí eu pergunto numa entrevista com o Decio Pignatari, ele falou isso, como as mulheres só tinham modelo de sucesso masculino, a mulher que queria vencer copiava o modelo masculino, os gestos, e tudo. E eu me vi naquilo, daí falei “ah, isso eu não quero pra mim”. Então comecei a mudar.

 

P – E foi possível?

R – Eu acho que foi, eu virei brava, uma mulher brava. Pra poder sobreviver. Eu tenho a fama… Você fala a meu respeito no meio eles dizem, elogiam a minha honestidade, a minha dignidade, mas dizem “ela tem um gênio do diabo, não dá pra conviver com ela”. Não é gênero, é braveza. Mas se não fosse assim eu não sobreviveria.

 

P – A braveza foi uma defesa?

R – Sim, senhora. Eu era muito bonita. Imagina se eles iam deixar passar em brancas nuvens se eu não fosse brava? Homem morre de medo de uma coisa: escândalo. E eu não tinha o mínimo medo disso.

 

P – As pessoas ainda têm medo de você?

R – Mas eu sou muito esquisita mesmo [ela ri]. Eu sou uma incógnita. Eu tenho dignidade e não tenho o rabo preso. Eu sempre expus tudo no ar: pá pá pá pá [faz gesto de karatê com mão].

 

P – Tem várias gravações antigas suas no Youtube.

R – A primeira vez que eu vi, porque minha neta me mostrou, eu sentei e fui me encolhendo… Há 20 anos eu não estou mais no vídeo e me perguntei: “como é que eu falava isso no ar? Pai de misericórdia, eles têm razão! Não pode soltar essa doida”. Minha neta falou “tem mais”. E eu não dormi à noite. Fiquei assustada mas eu achei que eu era uma puta profissional. Eu falei “até hoje ninguém fez isso”. É porque eu não tenho o rabo preso.

 

P – Você está fora da tevê mas escreve sua coluna nesta revista e é lida por 1 milhão de pessoas por semana, em media. Você não tem medo de dizer o que pensa?

R – Eu tenho medo. Mas eu acho que o que tem de ser dito, deve ser dito. Tem que dizer? Eu digo.

 

P – As leitoras admiraram muito sua coluna sobre a morte da Hebe, no ano passado.

R – Fico feliz que tenham gostado, mas a coluna sobre o Silvio Santos também foi bonita, né? E eu não pus que eu fui noiva dele porque eu não quis.

 

P – O quê??

R – Eu fui noiva dele.

 

P – Você foi noiva do Silvio Santos?

R – Eu fui noiva do Silvio. Quando ele era muito pobre. Aquela coluna que eu falo da meia vermelha [de Silvio Santos] é quando a gente saía.

 

P – Você o amava?

R – Eu era um pouco encantada pelo locutor. Você imagina, ele era lo-cu-tor [fala bem pausado e pomposo]. Aí um dia marquei encontro com ele no Cine Metro, que era chiquérrimo, na época, e eu estava do outro lado da rua e ele na porta. Eu vi ele de longe, ruivo, a calça curta, a meia vermelha, o sapato… Eu falei “ah, não, não dá”. Nãããooo, não dá. Falei que não dava. Terminei. Ele falou: “um dia eu vou ficar rico e vou te comprar”. Dei risada, falei “vai ficar rico como? Nós dois pobres, você mora nessa pensão desgraçada na rua do puteiro, agora vai ficar rico como? Va, va...”. Passaram-se anos e anos e anos, eu saí da TV Bandeirantes e ele mandou me chamar pra me contratar. Aí o Arlindo Silva veio me buscar aqui. Eu falei: “vou”. Eu tenho que trabalhar, né? E o Arlindo disse que eu tinha que assinar com ele, Silvio. Então tá bom. Eu tinha esquecido. Quando assinei o contrato, ele falou: “Eu disse que lhe comprava”. Ele não tinha esquecido. Cê sabe que me deu um choque tão grande que me deu artrose nos joelhos.

 

P – Na hora?

R – Não, demorou um pouco. Aí o Ademarzinho Dutra veio e falou: “Ai, Xênia, ele pede todos os dias os tapes do programa e fica assistindo na sala”.

 

P – O Silvio gostava de você?

R – Gostava. Mas depois que eu cresci na televisão, eu não sou o tipo de mulher que encanta. Ele quer mulher…

 

P – ... submissa?

R – No fundo ele tem admiração. Mas não pra ser mulher dele. E ele realmente cresceu, ficou milionário. E é um homem dificílimo, né. À maneira dele, é feliz. Cê já viu algum sagitariano que se preocupa com os outros? Não. E ele é casado com ele mesmoQuando o Silvio Santos morrer, a televisão para. Ninguém vai fazer igual.

 

P – Como você vê a televisão brasileira hoje?

R – Eu tô vendo muito mal, eu não tenho o que assistir. Eu assisto às novelas por absoluta falta de opção. E as novelas da Globo são bem feitas, justiça seja feita. Têm produção, direção, gente que entende do riscado. De vez em quando fazem umas cagadas homéricas como essa novela das nove agora [refere-se à Salve Jorge, de Gloria Perez], mas acontece. O que que eu vou assistir?

 

P – Nada se salva?

R – Tenho o maior respeito pelo Silvio Santos mas a minha idade não me permite mais essa paciência com o auditório. Fausto Silva, louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, é um chato de galocha. A TV Cultura é chatíssima. O Roda Viva às vezes me dá até nausea de tão chato, convidam uns jornalistas rançosos… Pode-se fazer uma coisa inteligente e de nível. Jô Soares não fez? Chico Anysio não fez? Todo mundo parava pra assistir! A TV Pirata era formidável, e o próprio Sai de Baixo era engraçado. Já era um humor mais escrachado, mas isso cabe também. Agora eu não sei. Tem umas celebridades… O Marcos Mion, meu Deus, o que que ele é? Rafinha Bastos. Ele ia muito bem lá com o Marcelo Tas, que é antipatissíssimo, diga-se de passagem, mas é inteligente, sabe o que tá fazendo. O que sobra? As tais celebridades, eu não sei o que que é essa gente. Não sei.

 

P – E qual a consequência disso?

R – Pra juventude, a internet interessa muito mais. Minha neta gosta de novela e eu não proíbo porque tudo que é proibido é melhor. Ela senta comigo e assiste. Com 10 anos, ela é o ibope pra mim. Quando começou essa novela das nove, ela viu uns três capítulos e foi pro computador. Eu falei: “a novela não vai pegar”. E não tá pegando. Como ela, todos os outros foram. Em Avenida Brasil, todos ficaram. A Marcela torcia, “Carminha maldita”, “quero matar essa mulher”. Agora ela nem toma conhecimento.

 

P – Na tevê recente, Avenida Brasil foi a melhor coisa?

R – Infelizmente sim. É triste, porque o público está muito apático. O politicamente correto amassou as pessoas. Ai, não pode falar isso porque é feio. Há todo um clima negativo, essa obrigatoriedade da mídia de mostrar só o que é ruim, é o crime, o crime… Não dá pra viver, né.

 

P – Por que a mulher comete esse erro, de disputar com o homem a força sexual, se ela é tão inteligente?

R – Não sei, porque ela sempre quer ser moderna. É pelo medo de ficar para trás. É triste isso.


P – Toda mulher deve ser mãe?

R – Eu acho que não, tem mulher que não tem instinto materno. Essa mulher não deve ser mãe porque vai ser infeliz ela e a criança. Esse negócio de que toda mulher tem instinto materno é conversa. Por exemplo, eu nunca tive vocação pra parir. Nunca fui estéril, poderia ter os filhos que eu quisesse, mas eu me sentiria horrorizada com um ser humano dentro da minha barriga, o que vocês querem que eu faça? Nasci pra ser mãe mas não nasci pra gestar.

 

P – Sua filha é adotada.

R – É. Eu não teria condições de gestar.

 

P – Por que a sociedade pressiona tanto para a mulher ser mãe?

R – Isso é tão milenar que já vem na genética, tem que ser mãe, tem que ser mãe. Acho que é pra deixar a mulher no seu devido lugar, né. Se a mulher é a construtora do futuro, porque ela educa dentro de casa, então vamos condicionar. E a mulher compra essa ideia. Mas isso também é social, e, às vezes, ela pari mal, é uma péssima mãe!

 

P – E qual a consequência disso?

R – Péssimos cidadãos para o futuro.

 

P – Qual o recado para a sociedade que pressiona e para a mulher que vira mãe por obrigação?

R – Essa mulher tem que ter coragem, caramba. O século XXI favorece tudo isso. Ainda tem muita coisa a ser vista, revista, mas nesse século você tem que dizer ao parceiro, quando está namorando ou vai casar: “eu não quero filhos”.

 

P – Mas essa mulher não é vista com bons olhos.

R – Especialmente pela família do parceiro. Porque em geral, a família do homem precisa provar que ele é um garanhão. Se ele não tem filhos, vão dizer: “será que ele não tá dando conta do recado…”. É pressão pra cima dele. Se o homem é estéril a sociedade já mistura com impotência! Os homens não fazem vasectomia porque têm medo de perder a virilidade!

 

P – Com os diferentes papéis a exercer na vida moderna, as mulheres estão mais culpadas?

R – Antes dessa correria também elas viviam o império da culpa. Era um outro tipo mas também era culpa. Ela tinha que comer bem, ter a casa sempre bem arrumada, ela nunca achava que cuidava do marido o quanto ele merecia, era sempre o senhor poderoso num pedestal, tinha uma frase muito, não sei se usa hoje, mas era dita ao filho “você vai ver quando seu pai chegar”. Isso é horrível, quer dizer, ela jogava tudo pra cima do pai, só ele podia dar jeito, até numa criança. Mas ela também tinha culpa.

 

P – Algum dia a mulher vai se libertar das culpas?

R – Não sei. O dia em que for eliminada essa visão, é possível.

 

P – Na educação dos filhos, onde a mulher precisa mexer para criar um mundo mais feliz?

R – Xiii… É difícil. O homem faz sempre o papel de bonzinho, já reparou? E deixa o malzinho pra mamãe. Todo filho diz “meu pai é ótimo, minha mãe é uma chata”. Por quê? Porque ela é que tem que educar, e ele desautoriza ela. A mãe dá uma prensa aqui, daí eles vão pro pai e ele fala: “Não, a mãe tá com TPM, logo passa”. E acaba ali. Então, em primeiro lugar: parceria na educação. Mesmo que você veja que teu marido está chamando atenção de um jeito errado, deixa. Depois você conversa com ele. Não na frente da criança. A mesma coisa o marido. Eu não gosto de educação por medo ou hipocrisia. Agora há pouco, antes de você chegar, eu tive um sarapapá com a Marcela. Eu grito que nem uma lôca. Ponho pra fora tudo. E ela grita comigo também. Eu passo a mão na colher de pau e falo “eu vou te dar uma colher de pau na bunda”. Dez minutos depois, quem ouviu, diz: “são tudo louco”. Mas eu pus tudo o que estava me incomodando pra fora, não sou louca de ficar guardando, engolindo e com raiva da criança. E nem ela com raiva da vó. Ela solta: “chata, que me enche o saco, poxa” [ela ri].

 

P – Mas isso é normal.

R – É, mas não pode, porque é feio gritar… Daí ficam cheios de ressentimento. E é uma menina saudável, alegre, brincalhona, pura. Com quem se conversa tudo.

 

P – Qual o segredo dessa boa educação, Xênia?

R – Outro dia a gente estava assistindo Gabriela e o Humberto Martins foi descendo, beijando a Gabriela pra cá, pra lá, ela falou: Vovó, ele vai beijar a periquita dela?”. Eu falei: “Vai”. Ela falou: “Mas é nojento”. Eu falei: “Você que sabe. Ela gosta, você acha nojento, cada um acha o que quiser, pronto”. E te digo: ela não tem um pingo de malícia. Outro dia ela me pegou perguntando o que era cafetina. Aí falei: “É uma mulher que recebe metade do que as moças recebem quando se prostituem”. E ela: “Putaquepariu, vó, que horror, tem que matar essa desgraçada” [ela ri].

 

P – Hoje a mulher reclama que não tem homem e, quando tem, eles não querem ajudar em casa.

R – Não ajudam porque não sabem. Não são educados pra isso.

 

P – Por que a mulher educa de forma diferente e põe a menina pra fazer tarefas domésticas e o menino não?

R – Ela faz isso sempre com medo de que o filho seja gay. Já vem do marido, que diz: “Menino vai fazer serviço de casa? Não, assim vai virar gay”. Daí começa a gozação.

 

P – Como formar os homens de amanhã, então?

R – Se o menino vê o pai na cozinha ajudando a mãe, varrendo a casa, limpando um vidro, ele vai copiar o pai. Mas ele vê? Não. Ele vê o pai lendo jornal, futebol…

 

P – A maior reclamação da mulher é a falta de tempo. Como resolver isso?

R – Não sei, acho que a gente trabalha muito agora. E já dizia Jesus, a seu tempo: “Não se serve a dois amos”. Então ou você trabalha ou você tem filhos.

 

P – É preciso haver uma opção?

R – Sim. Eu prefiro não ter computador novo, mas ter um filho feliz. Porque normalmente se trabalha não é pra ajudar na despesa, é pra comprar futilidade, coisas que enferrujam, que apodrecem. O ser humano não enferruja, não apodrece e morre porque é mortal. É o mercado.

 

P – É muito trabalho que resulta em consumismo fútil?

R – As pessoas não percebem que nós estamos numa puta ditadura, que é a ditadura do mercado? Ninguém é livre nesta porra, meu Deus! Você tem que ser muito magro, você tem que ser muito moço, você tem que trabalhar muito pra comprar muito! Não conte tristeza, peloamordedeus, você é pesada e você tem que ser leve… Porra, como é que eu posso ser leve se eu abro o jornal e tem oito motocicletas palestinas arrastando um palestino morto porque ele traiu a Palestina passando informação pros judeus? Eu posso ser feliz com esse mundo? Esse mundo evoluiu? Não evoluiu porra nenhuma! Evoluiu cientificamente, tecnologicamente, mas o ser humano está voltando pras cavernas.

 

P – Vivemos uma imaturidade social?

R – Essa sua geração, que está agora com 35, 45 anos, foi criada com os pais se colocando à frente. Eles não amadurecem nunca. Temos essa evolução fantástica, a internet – que é um perigo – mas em contrapartida, temos a cabeça do ser humano que é das cavernas. Os crimes continuam, as guerras continuam, os estupros, a violência… Qual é a evolução? Evolução pra mim é de dentro pra fora do homem. O que adianta viver mais dez anos porque a medicina avançou? Eu prefiro morrer antes e a humanidade ser melhor!

 

P –  Para a humanidade melhorar eu acho que a mulher precisa ser mais amiga da mulher. Você acha que um dia a mulher vai conseguir ser amiga da mulher?

R – Não. Eu não tenho esse otimismo. Nós somos extremamente competitivas, não parece mas somos, né. Não com os homens, nós somos competitivas entre nós. Aí reside a nossa fraqueza, porque os homens são amigos uns dos outros. Eles não levam a sério, eles dão tapas nas costas, são cúmplices, encobrem as coisas uns dos outros… A inveja do homem é menos perigosa que a inveja da mulher. Pra armar uma arapuca ele é menos inteligente do que ela. Mulheres são terríveis, eu tenho medo, MUITO medo… Inclusive a mulher é inimiga da mulher por pura insegurança. A mulher é tão insegura do seu valor que ela precisa sempre estar derrubando alguém pra sentir que está por cima.

 

P – E qual o valor da mulher?

R – É o valor de um ser humano. É o valor de quem traz a fotografia da vida na barriga. E deixe de sujar o canal do nascimento, a mulher não pode ser promíscua. O canal do nascimento tem que ser limpo. Isso vai colocar mais culpa ainda pra cima dela.

 

P – Como explicar isso pras mais jovens, que vão achar esse discurso puritano?

R – Não é puritano não. Você pode ter 50 homens e continuar limpa. No decorrer da tua vida, dormiu com 50 homens e continua limpa. Você continua limpa se você teve sentimento por aquele homem. Não porque você encontrou numa noite e foi pra cama com ele. Se você encontrou numa noite e foi pra cama com ele você tá suja. A Mulher não nasceu pra isso. Nãaao. E ela não tem a necessidade sexual que tem o homem. Desafio qualquer uma. DE-SA-FIO. A necessidade sexual do homem é toda diferente, tanto que ele é pra fora. A mulher precisa parar de competir com o homem, principalmente nesse aspecto. O orgasmo masculino é totalmente diferente do feminino!” Por isso pra eles, ó [faz gesto de tanto faz], é uma força que sai, e acabou!

 

P – A mulher precisa mais é de segurança afetiva mesmo?

R – É uma necessidade, sim. É da mulher.

 

P – O homem não precisa aprender um pouco mais sobre a mulher?

R – Mas eles não querem saber! Por quê? Voltamos ao sexo. Pra eles, mulher é aquela que vai dar esse imenso prazer pra eles. Pronto. Você dá comida pra ele, você dá sexo, ele tá realizado. Ah, não esquecer da cervejinha! E do futebol. Homem cresce mentalmente só até 12 anos, depois é só corpo.

 

P – Até quando a mulher vai usar o corpo como arma de sedução?

R – Pra sempre. Sempre foi e sempre será. Desde o Egito, de Roma, desde a putaquipariu, Eva deve ter usado o corpo dela pra pegar o Adão. E vai usar sempre.

 

P – E qual o caminho que as mulheres devem seguir de agora em diante conscientes disso tudo?

R – O trabalho eu acho fundamental. Para um grupo de mulher que pode optar por escolher o trabalho, eu acho que ele é fundamental. A mulher casada que tem filhos precisa pensar muito antes de optar. Ela tem que pensar: “O que eu quero? Trabalhar e terceirizar meus filhos vale a pena?”. Porque essa história de “ah, depois eles casam e depois me deixam”. Não, mas quando eles casarem e te deixarem eles já estão tudo estragado. Ontem morreu uma criancinha de 3 anos numa escolinha, numa piscina, né. Estava na escolinha, período integral. Então pra que ter filho? Deixa a criança na escola às 8h da manhã, vai buscar às 6 da tarde, você não tem filho! Amor é fruto de convivência! Teu filho tá dentro do teu útero, você vai gostar mais dele quando ele sair! Ele é um desconhecido, você não conhece nem a fisionomia! Amor é fruto de trocar fralda, de fazer mamadeira, é, sim, senhora, amor é trabalho! Que, pensa que amor vem assim, fácil? Não, não vem, não. Não vem. Então uma criança que fica confusa, a empregada durante o dia trata, cuida do jeito que ela pode, do jeito que ela sabe, de noite vem “ah, essa é a mamãe”, que confusão na cabeça dessa criança! Então veja: é melhor você ter arroz, feijão, bife e batata frita e não ter aquela televisão magrinha, que eu chamo de televisão magrinha [refere-se às TVs sem tubo], não ter a roupa de marca, tudo isso é pra mostrar pros outros, é pra mostrar pros outros que você tem. E educar teu filho bem porque isso é você que faz, porque ninguém, ninguém substitui a mãe. Algumas mães são uma porcaria, mas a maioria é voltada pro filho. E o terceiro grupo é o dos ricos, e os ricos que se virem. Não sei, não conheço a vida deles, eles que se virem.


FIM


Quero deixar registradas aqui duas frases da Xênia pra mim, em conversas telefônicas (sempre às sextas-feiras, lá na revista) que nunca esquecerei:

"Não fale comigo no diminutivo porque eu sou velha, não sou retardada"


"Não faça acordos por medo de solidão, Lidice. Nenhum acordo. Se quiser, case-se, mas por vontade de casar, e não por medo de ficar tia solteira. Se quiser, tenha filhos porque deseja ser mãe, e não por medo de envelhecer sozinha"

Um comentário:

  1. Woori Casino UK Review – 100% Bonus up to £20
    Wazdan has some 제주 출장마사지 of the best promotions available. Get 100% up to 삼척 출장안마 £20 and 용인 출장마사지 a 100% 슬롯 나라 match deposit bonus up to £20 on Wazdan 울산광역 출장샵 slot machine.

    ResponderExcluir