sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Bons repórteres atraem a notícia

Foto: Mylton Severiano

Eu e Guga, num restaurante qualquer de Floripa, ano 2002. Naquele dia, eu discutia com meu pai, meu mestre na profissão de jornalista, sobre como bons repórteres atraem a notícia. Eu estava teimando que não era bem assim, que esse papo de "ter estrela" nem sempre é real, e tal. Daí o Guga apareceu do nada. E calei a boca, claro. Sim, pai, você tinha sempre razão. Bons repórteres atraem a notícia, assim como bons profissionais, em qualquer área, atraem as melhores oportunidades. Ser positivo é isso.

PLANETA: a revista que abriu horizontes


Remendados com fita crepe, guardo esses dois exemplares da revista PLANETA há 33 anos e, usando a expressão dos místicos medievais, "senti e saboreei intimamente" cada trecho da sua história (leia a história da revista clicando aqui).

"Até ela [a revista PLANETA] surgir, ninguém havia falado de teosofia, Madame Blavatsky, Loren Eiseley, Gurdjieff, Nicolas Flamel,, alquimia... - a não ser grupos muitos restritos, que comecei a descobrir. A revista abriu caminhos. Egito, Atlântida, deuses astronautas...".

"A revista me mostrou que eu não devia ter medo nem do fantástico, nem do absurdo, porque o absurdo é mais real do que a própria realidade. e também que eu não devia duvidar de nada."
Ignácio de Loyola Brandão, jornalista, escritor e primeiro diretor da revista PLANETA

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Textos legais para reler

Esse aqui é do colunista Sérgio Augusto, que escreve aos sábados no Estadão, em revezamento com Marcelo Rubens Paiva. Na coluna "Quase Memorabilia" de 27DEZ14 ele escreve sobre suas lembranças e conta que:
* Wagner tocava piano mal.
* Vinicius de Moraes se impressionou com o sovaco de Ingrid Bergman, que sobre a cabeça do poeta passou numa banca de jornais de Los Angeles.
* William Faulkner por pouco não levou bomba na Universidade de Mississipi. Em inglês.
* Flaubert, zeloso mas distraído, deu olhos castanhos a Madame Bovary num capítulo e pretos noutro.
* Aquiles, por ser destro, na descrição de Homero, não podia ter enfiado sua lança no pescoço de Heitor com a mão esquerda, conforme se vê num desenho de Rubens exposto no Museu de Roterdã.
E por aí vai.

terça-feira, 21 de abril de 2015

A pior droga é a desinformação

Reportagem sobre drogas tem aos montes, a maioria em cima da mesma tecla, "legalizar ou não?". Neste livro, encontrado no sebo estante virtual, o jornalista Mylton Severiano (meu falecido pai e mestre, a quem devo a criação deste blog) enriquece a conversa partindo de uma questão básica que jornalista nenhum pode ignorar ao pegar esse tema pela frente: "Por que o ser humano usa drogas?"

Em 11 capítulos, o livro fala de álcool, anfetaminas, ayhuasca, cocaína, crack, ecstasy, haxixe, LSD, maconha, opiáceos e tabaco -tanto drogas lícitas quanto ilícitas. "Se Liga - O Livro das Drogas - O que pais e filhos, mestres e alunos devem saber antes de aprovar ou condenar" tem reportagem de Davi Molinari, prefácio de Caco Barcellos, entrevista com Erasmo Dias e participação especial de Luiz Sergio Modesto. Editora Record, 1997. Como diz o autor logo no início, "a pior droga é a desinformação".

domingo, 5 de abril de 2015

A natureza finita da vida humana


"Cada um se lança à VIDA, sofrendo da ânsia do futuro e do tédio do presente. Mas aquele que utiliza todo o tempo apenas consigo mesmo, que organiza os dias como se fosse o último, não deseja, nem teme o amanhã."
Lúcio Anneo Seneca (4 a.C. - 65), filósofo

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"Sobre a Brevidade da Vida" é o livro ideal para quem se sente perdendo tempo mas jamais desiste de realizar uma obra maior.

domingo, 8 de março de 2015

Marilyn: uma das entrevistadas no Dia da Mulher


Em sua edição original, esse livro organizado pelo jornalista Fábio Altman reúne 55 entrevistas publicadas entre 1823 e 1992. As mulheres ouvidas nele são seis:
1. Greta Garbo
2. Gertrude Stein
3. Marilyn Monroe
4. Leila Diniz
5. Margareth Tatcher
6. Bette Davis


Só achei essa antologia à venda no site Estante Virtual (clique aqui para ver). Outros nomes destacados pelo autor são: Al Capone, Pablo Picasso (abaixo, à frente da obra A Cozinha), Norman Mailer, John Lennon, Fidel Castro e Salman Rushdie.

terça-feira, 3 de março de 2015

domingo, 1 de março de 2015

O casamento perfeito de imagem & texto

Ele se chama infográfico. Em uma linguagem menos poética, ele é o conjunto de recursos visuais usados para sintetizar uma ideia. Abaixo, um exemplo de infográfico de bom gosto sobre "O Impacto da Tecnologia no Jornalismo Tradicional".


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Como realizar o impossível


Essa é a redação da CNN em Atlanta. A emissora a que todos assistem quando querem se informar estreou nos Estados Unidos em junho de 1980 debaixo de descrédito e zombaria: ninguém apostava no conceito de 24 horas de telejornalismo no ar. Seu líder, o empresário e esportista americano Ted Turner, tinha na equipe um bando de indomáveis.

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"Vou fazer isso porque um monte de gente dos altos escalões riu de mim. Fiquem de olho. Sou como um buldogue, que morde e não larga mais. Sabe por que meu veleiro de competição chama Tenacious, cara? Porque eu nunca desisto. Tenho várias bandeiras em meu barco, mas nenhuma branca. Eu nunca me rendo", disse Turner à PLAYBOY.


Uma década depois, a emissora de Turner virou a mais importante rede internacional de notícias, famosa pela cobertura ao vivo dos grandes acontecimentos mundiais.



"Eu só queria ver se era possível chegar lá - como Cristóvão Colombo. Quando se cria algo que jamais foi feito antes, quando se navega por mares não mapeados sem ter certeza do destino, sem saber o que pode ser encontrado no final da jornada, pelo menos a gente está seguindo para algum lugar".

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Quem conta essa história é o jornalista e escritor americano Hank Whittemore, no livro CNN - A História Real, da editora Best-Seller (à venda na Estante Virtual). 

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Dicionários para colecionar: Dificuldades da Língua

Dificuldades com a língua portuguesa?


O Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa, do gramático e tradutor Domingos Paschoal Cegalla, explica, por exemplo, quando devemos escrever "Santo" e "São".

Usa-se "Santo" antes de nomes iniciados por vogal (como Santo Antônio). Antes de nomes iniciados por consoantes, usa-se São (como São Francisco ou São José).

Fosfeno é cultura


Jornalista feliz é o que está sempre aprendendo palavras novas. Hoje descobri que FOSFENO significa aquela sensação luminosa provocada por outro agente que não a luz (pressão sobre o globo ocular ou estímulo elétrico).

Toque de mestre com João Cabral de Melo Neto

Qualé o texto que você mais gosta? "Eu prefiro o seco, porque é contundente", ensina o poeta e diplomata pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999).

Inêz Cabral e o pai, o poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto

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"Editar é cortar palavras", dizem os bons. Essa tesourinha aí deve ser sua amiga. O texto tá chato? Corte sem dó. Tá delicioso, mas é longo? Corte com tato. Pra que "ficar no ar" mais tempo do que o necessário? Desapega.


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Miniperfil Klester Cavalcanti: o jornalismo e o medo

Antes de escrever Dias de Inferno na Síria, sobre sua experiência de ter sido preso pelo governo sírio em 2012, durante uma cobertura de guerra naquele país, o pernambucano Klester Cavalcanti já tinha publicado Direto da Selva, Viúvas da Terra (Prêmio Jabuti de Literatura 2005) e O Nome da Morte (Prêmio Jabuti de Literatura 2007). Perguntei sobre sua relação com o medo. "O medo me dá prazer", ele disse.

Eu e Kléster durante nosso papo, no dia 11 de fevereiro

Antes de receber o diploma de jornalista da Universidade Católica de Pernambuco, em 1997, Klester já era engenheiro mecânico formado pela Universidade Federal de Pernambuco, em 1991. Depois da viagem à Síria, ele vive enfatizando. "Não sou correspondente de guerra. Sou jornalista, que faz de tudo". Inclusive saltar do maior bungee jump do Brasil, com 86 metros, em Paulo Afonso (BA).


"Prefiro me arriscar do que ficar frustrado depois"


 Nas 285 páginas do livro, Klester descreve sua experiência com tantos detalhes que parece que a gente está vendo um filme. Com prefácio de Caco Barcellos, a obra rendeu mais um jabutizinho para a coleção do autor.


Nesta entrevista gravada em 11 de fevereiro de 2015, Klester Cavalcanti fala sobre as qualidades de um repórter de guerra e sua relação com o medo. Conta sua primeira aventura em alto mar e a reflexão que faz cada vez que salta de bungee jump.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Afirmar é melhor que negar


Quanto menos "não" no seu texto, melhor. Como aprendi isso há anos, esqueci a explicação exata. Mas é ciência. Funciona mais ou menos assim: o cérebro dá "duas voltas" para processar a palavra não. Repare como fica diferente.

Se você quer dizer: "Não estou com fome".
Escreva: "Estou sem fome".

Se você quer dizer: "Você não fez a coisa certa".
Escreva: "Você fez a coisa errada".

Se você quer dizer: "É muito difícil não reagir".
Escreva: "É fácil reagir".

Lembre-se: escrever é pensar. Ser positivo ajuda no texto - e na vida. E nas situações em que for impossível retirar o não de uma frase, mantenha-o. Serão poucas.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Dicionários para colecionar: O Pai dos Burros


De Humberto Werneck, O Pai dos Burros (editora Arquipélago) reúne clichês e lugares-comuns que o jornalista cuidadoso evita. A lista é poderosa. "Matar dois coelhos com uma cajadada só" é o meu preferido na letra M. "Caiu na rede, é peixe", na letra P.

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"Os clichês têm origem no 'medo do desconhecido', no conforto medíocre de quem, preferindo não arriscar, se basta com fórmulas prontas", afirma o jornalista norte-americano H. L. Mencken, citado na introdução do livro. "Se escrever vale a pena, deve ser para enunciar algo que se pretende novo - e me parece um contrassenso, sobretudo no jornalismo, tentar passar o novo com uma linguagem velha", arremata Werneck (para ler as crônicas de Humberto Werneck no Estadão clique aqui).

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Biblioteca básica: A Coragem de Criar


"Devemos soltar completamente as rédeas? Ousar pensar o que não pode ser pensado?"

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No livro A Coragem de Criar (Nova Fronteira, encontrado na Estante Virtual), o psicanalista americano Rollo May desata nós da criatividade: "Precisamos combater duramente o preconceito de que o talento é uma doença e a criatividade uma neurose".

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Outra boa ideia defendida por May desde 1975 - e que podemos aplicar no jornalismo - é essa: "A imaginação é a extrapolação da mente. É a capacidade que tem o indivíduo de aceitar o bombardeio de imagens, ideias, impulsos e toda a sorte de fenômenos psíquicos vindos do pré-consciente. É a coragem de soltar as amarras do navio, na esperança de encontrar outros portos na vastidão do mar."


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Liberdade para escrever


Concordo com Joaquim Ferreira dos Santos: escrever em português, sem o vício de encaixar palavras em inglês, para "sofisticar" o texto, é libertador. Veja outros segredos da boa redação em "Escrever", dele (basta clicar aqui).


Meu primeiro texto em versão digital


Nesse post reproduzo o texto da minha primeira reportagem (jornal O Nacional, 1987). Para uma jovem de 19 anos que amava o skate, escrever 15 mil caracteres foi impressionante, naquela época! A surpresa é ver que ele continua atual. Troque os skinheads pelos black blocs, por exemplo, e veja que o retrato que eu trouxe da rua foi um dos mais completos sobre um movimento jovem no Brasil.

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"Os Revoltados Carecas do Subúrbio"
Eles foram notícia há um mês, quando ameaçaram "quebrar tudo" por não poderem pagar para ver o show dos Ramones. Já devem ser uns 200, espalhados pela Zona Leste e ABC, São Paulo. São os carecas do subúrbio, que raspam a cabeça contra "o sistema". Muitos andam armados (arma branca). Mas se alguém os acusa de violência, respondem como a careca Márcia, 22 anos, operária de uma confecção: o fruto da violência suburbana "não vai ser nunca um bichinho de pelúcia"

Reportagem de Lidice Severiano da Silva
Fotos de Marisa Uchiyama

- Vocês deram sorte de conseguir esta matéria - fala Gordão, careca antigo no movimento. - A gente decidiu que não ia mais dar entrevista, nós não queremos publicidade, senão vai acabar com o movimento, essa futricação. Só estamos dando porque O NACIONAL é um jornal independente, que a gente não conhecia e gostamos da cara dele, pelo menos não é um jornal burguês, como o Estadão. Tão querendo fazer uma reportagem com a gente, mas a mina vai ver o não que ela vai ter na cara.

Gordão tem 22 anos e está no movimento há quase sete. Trabalha de mecânico numa oficina da região da avenida Paulista e ganha 2.000 cruzados por mês. Mora em Aracaré, região entre São Paulo e Mogi das Cruzes, onde vive a maioria dos carecas de subúrbio, a 50 minutos da estação Roosevelt, no Centro.

ATÉ METRALHADORA A POLÍCIA USOU

Conversar com eles não é mesmo muito fácil.
- Tem saído umas reportagens aí, com umas ideias erradas sobre a gente, não estamos gostando desse negócio - explica Coquinho, um dos organizadores da passeata que eles vão fazer no dia 1º de Maio, para protestar "contra a fome, a miséria, a falta de liberdade de expressão dos jovens, as usinas nucleares e principalmente o serviço militar obrigatório", entre outras coisas.
Essas reportagens a que Coquinho se refere saíram nos jornais Folha de S. Paulo e Jornal da Tarde, e nas revistas Yeah (de skate) e Crics (revista jovem). Segundo Coquinho, "estão pichando os carecas injustamente pelo abuso de violência".
Mas por que eles aprontaram no show da banda punk americana Ramones, em São Paulo, no último dia 31 de janeiro?


Até rajada de metralhadora a polícia deu, para conter três dezenas de carecas, com estiletes e machadinhas, que queriam quebrar tudo. Quem rebate a acusação é o Coveiro, que tem 22 anos e é dos mais ativos e antigos do movimento. Não quis ser fotografado. Nem dar o nome. Tem medo que, se algum dia vier a acontecer algo que comprometa os carecas, ele seja envolvido. Trabalha como agente de segurança em uma ferrovia que também não quis identificar "porque pode causar problemas".
- Sabe como é, né? Qualquer coisa que sai nos jornais sobre os carecas, eles ficam de olho. O esquema lá dentro é como um regime militar, tem um monte de regras impostas.

Coveiro explica o caso do Ramones:
- O Ramones é uma banda punk que eu já conheço há anos e que veio para o Brasil numa época em que o punk é moda. Então qualquer boyzinho pode pagar essa grana (300 cruzados) por um show, só que esse show não é pra boy, tinha que ser pros punks, foi uma sacanagem o que eles fizeram! Então deu aquela revolta e a gente foi lá pra quebrar tudo mesmo. Tinha também uma treta particular com os punks da city...
Os carecas do subúrbio são realmente agressivos quando se trata de roqueiros cabeludos "que estão aí até hoje no 'paz e amor', sem nenhum ideal político".
- Fica uma imagem ruim pra nossa juventude, esses jovens drogados, comodistas, eles tinham que se interessar mais pela vida, pelo próprio corpo, pelos problemas do país - continua Coveiro.

UM TEM A MACHADINHA, O OUTRO, A MACHADADA

De cada dez carecas entrevistados, dez não usam droga nenhuma.
- A única droga são as mina - brinca Coquinho.
Não usam drogas, mas usam armas - "só quando vai rolar alguma treta" - garante Coveiro. Usam armas brancas, como facas, estiletes, canivetes, machadinhas.
Quem tem uma machadinha é o Léo, que não é o seu nome, é "o apelido do apelido", Leopardo. Está com 21 anos e quer se garantir. Bem, acreditem que Léo se garante, pois, além de andar com a machadinha, pratica à noite, depois do trabalho, kung-fu, caratê e boxe. Tem um filho pequeno, que até saiu na revista Yeah - conta o pai orgulhoso. Quem o vê na estação Tatuapé do metrô, com todos os amigos, não imagina jamais que Léo seja casado e pai de um menino de três anos.
Ele é um dos poucos que te dá um sorriso gostoso, é moreno e baixinho, usa um bonezinho em cima da careca, simpático mesmo.
- Os caras da city dizem que nós estamos aqui para atrasar o trem das onze e pintar asa branca de preta, mas nós estamos aqui para proclamar a independência do Brasil!
Ele ficou receoso de ser fotografado com a machadinha, mas por fim, cedeu.
Pois é, Léo tem a machadinha, e Gordão tem as machadadas. Mostra as costas cheias de cicatrizes.
- Isso aí foi agora, no "dezembro negro". Todo ano tem uma festa onde se reúnem todas as facções do movimento punk. Então, desde 1983 sempre sai quebra-pau.
Nesse último ano foi no Clube Nacional de São Vicente, litoral paulista. Gordão nem viu quem foi que deu a machadada, mas sabe que foram uns punks.
- Na hora do tumulto você nem vê nada, levei mas também dei.
A imprensa chegou a divulgar a quantidade de carros que eles depredaram, a socos e pontapés. Só não divulgou a cena de alguns policiais exigindo que duas carecas cacarejassem diante deles.
- Eu não conheço essa pena, só sair agora, na nova Constituição - comenta Coveiro.

Aliás, na nova Constituição bem poderia sair uma lei que aumentasse o salário de quem faz horas extras. Moicano, por exemplo, seria o primeiro careca a sentir uma imensa felicidade, porque trabalha das 7 da manhã até às 5 da tarde, para ganhar 1.800 cruzados. Com as horas extras, acaba trabalhando até às 10 da noite, ou seja, 13 horas diárias, para ganhar 1.000 cruzados a mais por mês. Este rapaz tem 25 anos e o trabalho dele é alvejar sacos de pano numa sacaria perto da estação Roosevelt. Então ele fica lá o dia todo, tirando sacos dos sacos e colocando-os nas máquinas de lavar, pendurando para secar, mexendo com o cloro que faz chorar, de tanto que arde nos olhos.
- Os sacos têm é que ficar branquinhos, fala o patrão. Que sacal!

"ME TIROU, EU SOQUEI MESMO!"

Apesar de não se dizerem violentos, os carecas gostam de uma ceninha, são mesmo teatrais. Tipo "este território é meu, não invada se não quiser confusão", referindo-se tanto às minas, das quais têm muito ciúme, quanto às imitações que podem surgir deles. Por exemplo, quando estão andando na rua, não suportam sequer uma olhada mais demorada, já acham que as pessoas estão "tirando", isto é, provocando.
- Me tirou, eu soquei mesmo.
Ou então, alguém desconhecido que esteja na rua, um careca de coturno e suspensórios, andando no visual deles, de operário trabalhador.
- Tem que chegar intimando, senão o nosso visual vai virar moda - Coveiro continua explicando. - Muitas vezes um cara anda no visual e sai por aí fazendo merda, depois vão confundir um carequinha qualquer com os carecas do subúrbio e sobra pra gente.
Os outros grandes inimigos estão na capa de um fanzine feito por eles mesmos, o "Revolta Suburbana", de outubro de 1986. (A palavra fanzine vem das palavras inglesas funny mais magazine, quer dizer, "revistinha engraçada", que mete o pau, satiricamente) A capa daquela tem um homem de braços abertos para a liberdade representada pelo Sol. Ele está de coturno pisando em cima de várias caveiras: clero, burguesia, polícia, aristocracia, metaleiros, capitalismo e até os darks (jovens que vivem de preto movidos a álcool e outras drogas, esperando o Apocalipse). Embaixo, os dizeres:
"Com a destruição de seus inimigos, o ser humano conquista a liberdade."

UM CHEIRO DE PODRIDÃO NO AR

Destruição, agressão, violência, de onde vem tudo isso, é fácil descobrir. More alguém no subúrbio e verá. Eles têm como principal meio de condução os trens do subúrbio, que acabam de matar 36 e ferir 66 pessoas.
- Esses trens são feitos para transporte de gado, são sujos e lotados, o fruto disso aí não vai ser nunca um bichinho de pelúcia - comenta a careca Márcia. - Nesse país só não vê a miséria quem já se acostumou a ela. Mas a gente não se acostuma, não!
Márcia, 22 anos, operária em indústria de confecções, faz esta análise do movimento:
- Já houve várias formas de protesto, o movimento punk, por exemplo, enriqueceu comerciantes e virou moda. Mas nós, carecas, começamos com poucos idealistas e estamos aí para desenvolver a nossa própria mentalidade de protesto, sabendo que toda luta é cansativa. A partir do momento que você tem um ideal, o próximo passo é raspar a cabeça, que é o nosso símbolo de protesto, e quanto mais aumentar a fome e o desemprego, mais aumentará o número de carecas, até que um dia o presidente da República saberá da nossa existência. Ainda não fizemos algo que atingisse os poderosos, mas esse dia chegará, porque continuamos nos organizando. Se há um lado brilhante no movimento é que todos passam por situações difíceis, conhecem a pobreza, a injustiça, sabem como é porque vivem a vida de subúrbio.

Realmente a paisagem suburbana não é das melhores. Estamos em Aracaré. A única diferença boa parece ser o ar, que aparenta não ser tão poluído. Mas as ruas não são asfaltadas, os esgotos não são canalizados. Há um cheiro forte de podridão. Crianças brincam ali, arriscadas a pegar doenças. Mas parece até que o organismo se acostuma. As casas são minúsculas e nelas moram famílias de até dez pessoas ou mais. O lugar à noite é mal-iluminado. Quando cai um temporal, alaga tudo, e costuma morrer gente, sobretudo criancinha afogada.
Quando você desce do trem, tem a impressão de que só existem aquelas casas ali seguindo os trilhos. Mas quando pega uma ruazinha, vira outra, depois outra e dá de cara com um matagal, pode seguir a trilha de terra que mais para frente tem mais casas. É lá que Fernando mora, um careca de 20 anos, atualmente desempregado. A mãe dele diz:
- É um ótimo garoto em casa. Nunca tenho problema com ele.
Fernando mora com a mãe e o pai adotivo. Dona Elza pinta panos de prato e vende cada um por 20 cruzados.
- Dá pra ganhar algum - comenta ela sorrindo e fazendo o jantar.
Seu Irineu é escriturário aposentado.
- O Fernando está de acordo com a geração dele. Na minha época, era o estilo Elvis Presley que se usava, eu conheço essas coisas de juventude, é passageiro.
A casa é um ambiente acolhedor. Apesar da falta de luxo, já foi assaltada três vezes e Fernando nem está estudando porque o colégio é longe e dona Elza tem medo que ele vá mas não volte.
- Esse lugar é violento demais.
Fernando pratica halteres como muitos carecas. É um jovem saudável, forte. Em casa, com os pais, é diferente daquele Fernando do subúrbio, de quando está à vontade com os amigos. Parece mais calmo. Agora está procurando emprego de segurança, já que é tão forte. Mas a mãe não vê mesmo a hora de que ele se case e se acomode.
- A gente quer ver os filhos da gente tudo feliz.

SEGUNDA-FEIRA TRISTE

Será feliz um careca como o Biritiba, 22 anos, que sai de casa para trabalhar todos os dias às 5 da manhã para voltar só às 11 da noite? Ele é tão fechado que não fala nem o necessário. Tem que cumprir esse horário para garantir o emprego como terraplenador. Acha que as pessoas não devem estranhar a violência dos carecas.
- Nossa realidade começa na segunda-feira e ela é triste.
Para alegrar os fins de semana, uma skinhead, Rosana, está batalhando o aluguel de um salão que será pago com a contribuição de todo o mundo. Pode estar nascendo um clube aí. As minas são poucas, mas têm presença marcante, tomam atitude de valente e talvez por isso os carecas sejam tão ciumentos e possessivos.
Simone tem 19 anos e trabalha numa revendedora de peças de automóveis.
- Acho que deveria haver mais garotas interessadas em nossas ideias. Porque quando um careca quer namorar, namora roqueira e a mina não pode ser zoada. A gente tem que andar com ela e não pode fazer nada.

OI, O GRITO DE GUERRA

Simone dá um toque de algumas bandas nacionais que eles curtem, como Garotos Podres, Vírus 27, Histeria, Carecas do Subúrbio; e algumas gringas, como Eskorbuto (Espanha), Nabat (Itália), The 4-Skins e Cockney Rejects (Inglaterra), Oi Polloi (Escócia). Essas bandas fazem um som duro, chamado oi, em resposta agressiva a um sistema que quer punir os que tentam fugir de suas garras, conforme explica o fanzine "A Plebe Punk". Oi é um grito de guerra, como se a pessoa dissesse "atacar".
Simone e Márcia estão começando a preparar um fanzine que futuramente será um jornal onde comentarão sobre todas as facções políticas como o anarquismo, o nazismo, o neo-nazismo, o capitalismo, o socialismo, e por aí afora. Mas terá também a colaboração de todas as outras minas que "querem mostrar pros carecas que elas não são só um enfeite ao lado deles", como a China, que vai escrever no número 1 sobre socialismo. China tem 17 anos e é recepcionista de um jornalzinho de bairro chamado O Cidadão, onde trabalha das 8h às 18h, em Taboão da Serra. China só se deixou fotografar de costas. Uma pena, porque é muito bonita. As carecas não gostam de ser fotografadas. Ninguém chegou espontaneamente na frente da câmera para mostrar o rosto. Não há exibicionismo mas há ambições.
Na reunião que fizeram em Jundiapeba. a 45 minutos de trem do Centro de São Paulo, para discutir sobre a passeata do 1º de Maio, falaram até em entrar para a história do Brasil, não para serem heróis, mas por terem uma organização, por não se misturarem com a burguesia e não perderem a essência da luta suburbana.
- Queremos que as pessoas sintam orgulho ao dizer "eles são carecas, eles lutam por nós, pelo povo" - discursou Coquinho, durante a reunião.
- Ser careca é uma opção de vida. O jovem drogado cai na sarjeta e a sociedade vai rir dele. É isso o que eles querem, essa falta de interesse, essa falta de cultura, essa alienação toda, gente burra pra ser dominada como marionetes. A gente tem que procurar o que queremos nos jornais, na televisão, onde houver informação. Nossa violência não pode ser gratuita, senão as pessoas nunca darão ponto pra gente.

"ISTO AQUI NÃO É MAIS UMA GANGUE"

No fundo, no fundo, formam um grupo muito unido e dá para sentir afeto entre eles só pela maneira com que se cumprimentam, aquele aperto forte de mão, um empurrãozinho de ombro, um sorriso na cara. Brincam de brigar, ficam "socando" um ao outro. Se alguém está com problemas ou se mete em encrenca, todos ajudam sem piscar o olho. A solidariedade é grande.
Toninho, 27 anos, ajudante-geral em um jornal que ele prefere não identificar, foi quem começou a organizar o movimento, junto com o Coveiro. Criaram uma base. Fala como se dissesse tudo de mais importante que há para ser dito:
- Isso aqui não é mais uma gangue, isso foi nos tempos e moleque, agora o negócio é sério, não estamos brincando, não, e temos que fazer a cabeça dos mais novos que entram e que geralmente gostam de arrumar confusão. Veja esse aqui, aquele ali, aquela outra - diz, apontando para qualquer lado. - Eles são como irmãos para mim. Se fico muito tempo sem encontrá-los, fico doente, esta é a minha família, ela está aqui, ó - e aponta para todos.
P.S. - Onde se lê Gordão, não é Gordão, mas o personagem prefere não dar o nome nem o apelido dizendo que "é melhor para todos nós". A reportagem estava escrita quando chegou a notícia de que os carecas do subúrbio finalmente concordaram em falar ao Estadão.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Calipígia é cultura


Jornalista feliz é o que está sempre aprendendo palavras novas. Hoje descobri que CALIPÍGIA significa pessoa com belas nádegas. Vi no texto do escritor e jornalista Joaquim Ferreira dos Santos sobre a bunda da atriz Paolla Oliveira. Para ler, clique aqui.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O dia que eu virei jornalista


Segunda-feira, 02 de fevereiro de 1987:
Com 19 anos, saio de casa para o meu primeiro dia de trabalho na sucursal do jornal carioca O Nacional achando que vou ser produtora, secretária ou algo assim.
Dirijo minha Vespa azul prateada a caminho do semanário dirigido pelo jornalista Tarso de Castro (pai de João Vicente de Castro, um dos comediantes do Porta dos Fundos).
Na redação paulistana trabalham meu pai, Mylton Severiano da Silva, Alex Solnik e outros feras como Cláudio Abramo - que ia pouco à redação, de carona com Solnik.
Naquela manhã em que eu cheguei esbaforida, insegura por causa da nova ocupação, encontrei meu pai e a fotógrafa Marisa Uchiyama falando dessa notícia da Folha:


Skinheads tentam invadir o Palace, em São Paulo, armados de facas, estiletes e pedras

Na Folha tinha uma foto dos carecas deitados na rua, algemados de barriga para baixo. "E a versão deles? Isso é a matéria! Será que conseguimos?", meu pai provocou

Eu tinha uns chegados que conheciam os skinheads, podiam ajudar. "Então você faz a matéria", Mylton Severiano decidiu. Daí fiz. Com a fotógrafa Marisa, passei uma manhã em Itaquera com os carecas, fui ver onde viviam, o que pensavam, quem eram, afinal. Rendeu página espelhada (aquela que fica ao lado uma da outra) e chamada na capa.

Na capa, ganhei janela (à direita): a reportagem foi editada no Rio pelo Palmério Dória


Detalhe da capa em destaque: estreei no time de Tarso de Castro e Cláudio Abramo


                                      A página espelhada: uma ao lado da outra para dar destaque



Minha assinatura de estreante: Lidice Severiano da Silva. 
A aranha no detalhe dessa paginação foi tirada do pescoço de uma skinhead. 
Depois dessa matéria, vieram várias outras - até que o jornal fechou. Tristeza.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

A fonte para se escrever bem

Fonte do Airlie Gardens, Wilmington, Carolina do Norte

"O saber é o princípio e a fonte para se escrever bem."
Horácio, filósofo e poeta romano (65 a.C. - 8 a.C.)

Biblioteca básica: A Arte de Escrever


Destaquei três ideias do livro A Arte de Escrever, do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860), que garantem um texto bem escrito. São elas:


1. "O adjetivo é inimigo do substantivo". Essa é uma citação do escritor francês Voltaire (1694-1778) que, colocada em prática, melhora o texto na hora! Por que escrever que "fulano estava emocionado" se você pode escrever apenas que "fulano chorava"?

2. Resuma. Usar muitas palavras para comunicar poucos pensamentos é o sinal inconfundível da mediocridade. Melhor resumir vários pensamentos em poucas palavras.

3. Prefira a clareza. Não devemos nos expressar de modo enigmático, mas saber se queremos ou não dizer alguma coisa. Ou seja, antes de começar seu texto, pare uns minutos e pense: o que você quer dizer? Quando tiver a resposta, comece.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Anna será lembrada


Essa é uma das mulheres de Lidice (antiga aldeia da atual República Tcheca que foi destruída por Hitler durante a II Guerra por crime de vingança - e não de guerra). Avó de Zdenka Kotková, Anna morreu em 23 de setembro de 1944 em uma câmara de gás e nós nunca nos esqueceremos disso. #lidiceshalllive
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Veja nesse link a família completa de Anna - da qual apenas a mãe de Zdenka, Ladislava, sobreviveu.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Ser repórter é ser curioso

O que acontece diariamente nos lugares onde não entram jornalistas?

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"A área é remota e tão perigosa que, na ausência de jornalistas, usamos os números fornecidos pela Anistia Internacional, dois mil mortos."
Lúcia Guimarães, colunista do jornal Estadão, sobre o massacre de Baga, agora em janeiro de 2015, na Nigéria. Para ler a coluna toda clique aqui.

Jornalismo é o primeiro rascunho da história

domingo, 25 de janeiro de 2015

O jornalista Gabriel García Márquez na redação

Foto de 1954 

Transcrevo abaixo o discurso do escritor e jornalista colombiano Gabriel García Márquez feito 42 anos depois dessa foto. Gaba, como era apelidado, falou em 1996, em Los Angeles, durante a 52ª Assembléia Geral da Sociedade Interamericana de Imprensa.

A Melhor Profissão do Mundo

Por Gabriel García Márquez

"Há uns 50 anos não estavam na moda escolas de jornalismo. Aprendia-se nas redações, nas oficinas, no botequim do outro lado da rua, nas noitadas de sexta-feira. O jornal todo era uma fábrica que formava e informava sem equívocos e gerava opinião num ambiente de participação no qual a moral era conservada em seu lugar.

Não haviam sido instituídas as reuniões de pauta, mas às 5 da tarde, sem convocação oficial, todo mundo fazia uma pausa para descansar das tensões do dia e confluía num lugar qualquer da redação para tomar café. Era uma tertúlia [reunião] aberta em que se discutiam a quente os temas de cada seção e se davam os toques finais na edição do dia seguinte. Os que não aprendiam naquelas cátedras ambulantes e apaixonadas de 24 horas diárias, ou os que se aborreciam de tanto falar a mesma coisa, era porque queriam ou acreditavam ser jornalistas, mas na realidade não o eram.

O jornal cabia então em três grandes seções: notícias, crônicas e reportagens, e notas editoriais. A seção mais delicada e de grande prestígio era a editorial. O cargo mais desvalido era o de repórter, que tinha ao mesmo tempo a conotação de aprendiz e de ajudante de pedreiro. O tempo e a profissão mesma demonstraram que o sistema nervoso do jornalismo circula na realidade em sentido contrário. Dou fé: aos 19 anos, sendo o pior dos estudantes de direito, comecei minha carreira como redator de notas editoriais e fui subindo pouco a pouco e com muito trabalho pelos degraus das diferentes seções, até o nível máximo de repórter raso.

Alberto Lleras: jornalista e presidente sem curso secundário

A prática da profissão, ela própria, impunha a necessidade de se formar uma base cultural, e o ambiente de trabalho se encarregava de incentivar essa formação. A leitura era um vício profissional. Os autodidatas costumam ser ávidos e rápidos, e os daquele tempo o fomos de sobra para seguir abrindo caminho na vida para a melhor profissão do mundo - como nós a chamávamos. Alberto Lleras Camargo, que sempre foi jornalista e duas vezes presidente da Colômbia, não tinha sequer o curso secundário. 

A criação posterior de escolas de jornalismo foi uma reação escolástica contra o fato consumado de que o ofício carecia de respaldo acadêmico. Agora as escolas existem não apenas para a imprensa escrita como para todos os meios inventados e por inventar. Mas em sua expansão varreram até o nome humilde que o ofício teve desde suas origens no século XV, e que agora não é mais jornalismo, mas Ciências da Comunicação ou Comunicação Social.

O resultado não é, em geral, alentador. Os jovens que saem desiludidos das escolas, com a vida pela frente, parecem desvinculados da realidade e de seus problemas vitais, e um afã de protagonismo prima sobre a vocação e as aptidões naturais. E em especial sobre as duas condições mais importantes: a criatividade e a prática. 

Em sua maioria, os formados chegam com deficiências flagrantes, têm graves problemas de gramática e ortografia, e dificuldades para uma compreensão reflexiva dos textos. Alguns se gabam de poder ler de trás para frente um documento secreto no gabinete de um ministro, de gravar diálogos fortuitos sem prevenir o interlocutor, ou de usar como notícia uma conversa que de antemão se combinara confidencial.

A curiosidade é mais importante do que o furo

O mais grave é que tais atentados contra a ética obedecem a uma noção intrépida da profissão, assumida conscientemente e orgulhosamente fundada na sacralização do furo a qualquer preço e acima de tudo. Seus autores não se comovem com a premissa de que a melhor notícia nem sempre é que se dá primeiro, mas muitas vezes a que se dá melhor. Alguns, conscientes de suas deficiências, sentem-se fraudados pela faculdade onde estudaram e não lhes treme a voz quando culpam seus professores por não lhes terem inculcado as virtudes que agora lhes são requeridas, especialmente a curiosidade pela vida.

É certo que tais críticas valem para a educação geral, pervertida pela massificação de escolas que seguem a linha viciada do informativo ao invés do formativo. Mas no caso específico do jornalismo parece que, além disso, a profissão não conseguiu evoluir com a mesma velocidade que seus instrumentos e os jornalistas se extraviaram no labirinto de uma tecnologia disparada sem controle em direção ao futuro.

Quer dizer: as empresas empenharam-se a fundo na concorrência feroz da modernização material e deixaram para depois a formação de sua infantaria e os mecanismos de participação que no passado fortaleciam o espírito profissional. As redações são laboratórios assépticos para navegantes solitários, onde parece mais fácil comunicar-se com os fenômenos siderais do que com o coração dos leitores. A desumanização é galopante.

A vertigem das comunicações

Não é fácil aceitar que o esplendor tecnológico e a vertigem das comunicações, que tanto desejávamos em nossos tempos, tenham servido para antecipar e agravar a agonia cotidiana do horário de fechamento. 

Os principiantes queixam-se de que os editores lhes concedem três horas para uma tarefa que na hora da verdade é impossível em menos de seis, que lhes encomendam material para duas colunas e na hora da verdade lhes concedem apenas meia coluna, e no pânico do fechamento ninguém tem tempo nem ânimo para lhes explicar por que, e menos ainda para lhes dizer uma palavra de consolo.

'Nem sequer nos repreendem', diz um repórter novato ansioso por ter comunicação direta com seus chefes. Nada: o editor, que antes era um paizão sábio e compassivo, mal tem forças e tempo para sobreviver ele mesmo ao cativeiro da tecnologia. 

Reportagem exige tempo

A pressa e a restrição de espaço, creio, minimizaram a reportagem, que sempre tivemos na conta de gênero mais brilhante, mas que é também o que requer mais tempo, mais investigação, mais reflexão e um domínio certeiro da arte de escrever. É, na realidade, a reconstituição minuciosa e verídica do fato. Quer dizer: a notícia completa, tal como sucedeu na realidade, para que o leitor a conheça como se tivesse estado no local dos acontecimentos.

O gravador é culpado pela glorificação viciosa da entrevista. O rádio e a televisão, por sua própria natureza, converteram-na em gênero supremo, mas também a imprensa escrita parece compartilhar a ideia equivocada de que a voz da verdade não é tanto a do jornalista que viu como a do entrevistado que declarou. Para muitos redatores de jornais, a transcrição é a prova de fogo: confundem o som das palavras, tropeçam na semântica, naufragam na ortografia e morrem de infarte com a sintaxe.



Talvez a solução seja voltar ao velho bloco de anotações, para que o jornalista vá editando com sua inteligência à medida que escuta, e restitua o gravador a sua categoria verdadeira, que é a de testemunho inquestionável. De todo modo, é um consolo supor que muitas das transgressões da ética, e outras tantas que aviltam e envergonham o jornalismo de hoje, nem sempre se devem à imoralidade, mas igualmente à falta de domínio do ofício.

Talvez a desgraça das faculdades de Comunicação Social seja ensinar muitas coisas úteis para a profissão, porém muito pouco da profissão propriamente dita. Claro que devem persistir em seus programas humanísticos, embora menos ambicioso e peremptórios, para ajudar a constituir a base cultural que os alunos não trazem do curso secundário.

Entretanto, toda a formação deve se sustentar em três vigas mestras: a prioridade das aptidões e vocações, a certeza de que a investigação não é uma especialidade dentro da profissão, mas que todo jornalismo deve ser investigativo por definição, e a consciência de que a ética não é uma condição ocasional, e sim que deve acompanhar sempre o jornalismo, como o zumbido acompanha o besouro.

O objetivo final deveria ser o retorno ao sistema primário de ensino em oficinas práticas formadas por pequenos grupos, com um aproveitamento crítico das experiências históricas, e em seu marco origina de serviço público. Quer dizer: resgatar para a aprendizagem o espírito de tertúlia das cinco da tarde.

Um grupo de jornalistas independentes estamos tratando de fazê-lo, em Cartagena de Indias, para toda a América Latina, com um sistema de oficinas experimentais itinerantes que leva o nome nada modesto de Fundação do Novo Jornalismo Ibero-Americano. É uma experiência piloto com jornalistas novos para trabalhar em alguma especialidade - reportagem, edição, entrevistas de rádio e televisão e tantas outras - sob a direção de um veterano da profissão.

A mídia faria bem em apoiar essa operação de resgate. Seja em suas redações, seja com cenários construídos intencionalmente, como os simuladores aéreos que reproduzem todos os incidentes do voo, para que os estudantes aprendam a lidar com desastres antes que os encontrem de verdade atravessados em seu caminho. Porque o jornalismo é uma paixão insaciável que só se pode digerir e humanizar mediante a confrontação descarnada com a realidade.

Quem não sofreu essa servidão que se alimenta dos imprevistos da vida, não pode imaginá-la. Quem não viveu a palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo do furo, a demolição moral do fracasso, não pode sequer conceber o que são. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fora para sempre, mas que não concede um instante de paz enquanto não torna a começar com mais ardor do que nunca no minuto seguinte."

sábado, 24 de janeiro de 2015

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Biblioteca básica: O Grande Livro do Jornalismo


"Nenhum tema é alheio à boa reportagem. Toda a vida humana está aqui."

Editado por Jon E. Lewis, esse livro reúne 55 textos jornalísticos de Jack London, Hunter S. Thompson, Mark Twain e outros grandes escritores e jornalistas. Meu preferido é "Um Homem É Guilhotinado em Roma", escrito por Charles Dickens para o The Daily News - jornal que ele fundou em 1845. Junto com "Fuga", do então repórter da 1ª Guerra Mundial Winston Churchill, e "A Morte de Mata Hari", escrito por Henry G. Wales, já valem o livro - que só achei na Estante Virtual (clique aqui).

Receita para um bom texto


Para escrever bem é preciso ter clareza, precisão, ritmo, objetividade, humildade e solidariedade. Nem fácil, nem difícil, esse trabalho exige amor e técnica. No início, o mais importante é vencer a preguiça. De pensar. Só assim você terá ideias próprias.